Tanto o título como a citação abaixo é polêmica e muito pertinente ao tema desse ensaio. Se lido por desavisados, ou mesmo superficialmente pode aparecer que Wollner é um velho ranzinza reclamando sobre termos do design. Mas, essa frase está longe e bem além disso:
Não existe web designer. Existe o designer que faz web e este profissional tem que aprender tudo, tipografia, fotografia, semiótica, gestalt, matemática, ótica, percepção, comportamento humano, etc. Alexandre Wollner
O termo interdisciplinar é bastante comum em diversos cursos em graduação. Mas, nem tão comum é ver a interdisciplinaridade em prática na sala de aula. A maioria das vezes fica por conta do aluno fazer o papel do professor e encontrar relações entre matérias distintas, como por exemplo, Matemática e Fotografia, Desenho Técnico e Identidade Visual, entre outras. Afinal como matérias tão diferentes a primeira vista podem ter algum tipo de relação? O quão preparado estão nossos professores para lecionar aplicando a interdisciplinaridade?
O design intrinsecamente é multidisciplinar por sua própria essência. Mesmo com tantas agencias e escritórios ironicamente se autodenominando com equipes multidisciplinares como grande diferencial de mercado.
Mas, voltando a citação de Wollner, agora, pensemos em um trabalho desenvolvido por um designer, uma identidade visual por exemplo. Imagine uma identidade visual concluída, e com suas aplicações já em uso. É impossível chegar a um bom resultado se não houver a junção e harmonia entre o todo, vejam, o que estou dizendo vai além de um pensamento isolado da tipografia, ou a relação de cor e forma utilizada. Não é muito cabível após desenvolvido o trabalho tentar dissecá-lo na busca de relações entre as partes. O resultado será recebido e também concebido como um todo, uma só coisa ou unidade.
É fato que para se fazer design só é possível com repertório, vivencia, metodologia, pesquisa, estudo, etc. A tão falada inspiração representa ainda 10% do trabalho, acompanhado dos 90% de suor derramado.
Fica explicito então, que o design é a unidade, o todo, ou seja, é a junção de todas as partes de forma funcional para determinada aplicação ou uso. Mas como é possível na prática ensinar design? Os atuais modelos de aulas suprem a formação dos alunos? O design, como curso de graduação deve seguir o modelo de aula já adotado por outros cursos, com padrões de aulas que vem sendo requentado desde 1808, quando os portugueses fundaram a primeira faculdade aqui em terras tupiniquins? Os alunos saem da faculdade preparados para atuar no mercado de trabalho? Volto a primeira questão, respondendo ela o resto será consecutivamente esclarecido:
Como é possível na prática ensinar design?
Ensinar design está além das próprias disciplinas que literalmente cercam as atuais grades curriculares, esta distante de apenas se fechar nas matérias teóricas, práticas, técnicas e tecnológicas. O respirar design se faz de modo constante, na literatura, na música, num passeio, num filme, numa pelada de futebol, num museu, numa visita na nostálgica casa de nossos avós, num corte de cabelo, a nossa ida até o supermercado comprar aquele ingrediente que faltou para tal receita entre todas as outras coisas que podemos apreciar com outros olhos, com olhos de designer.
Tocar nesse ponto me fez lembrar de uma entrevista da TRIP Fm com o Selton Mello, que pode expandir nossa linha de pensamento: Ele fala algo sobre o laboratório em cinema e tv, que consiste em encostar em determinado ambiente/pessoa para sugar suas características, e assim poder interpretar de forma mais semelhante. Selton diz que isso já foi muito distorcido e que para ele viver na pele de um porteiro como personagem por exemplo, não precisa passar horas ao lado de um, pois ele teve vários porteiros, e vai saber como interpretar quando precisar. Finalizando ele fecha o assunto dizendo que laboratório em cinema e tv é coisa pra iniciante.
Claro, isso tudo chega a ser um pouco radical, mas tem lá suas verdades; se tentarmos fundir o que Selton falou com a idéia do respirar design, iremos notar que os temas são bastante semelhantes, e como é importante abrir nossos olhos a ponto de sermos sensíveis a sentir de outra forma o que nos cerca. Como um todo novamente, e de forma não linear, respirar design nos coloca mais próximos de nosso objetivo, nos aproxima de forma mais natural dos bons resultados para um projeto de design.
Transdisciplinaridade no ensino do design
Vou me encostar ao moderno pensamento complexo para dar o ponta pé inicial:
O pensamento complexo
A complexidade e suas implicações são as bases do denominado pensamento complexo de Edgar Morin, que vê o mundo como um todo indissociável e propõe uma abordagem multidisciplinar e multirreferenciada para a construção do conhecimento. Contrapõe-se à causalidade por abordar os fenômenos como totalidade orgânica.
Segundo Edgar Morin (Introdução ao Pensamento Complexo, 1991:17/19): “À primeira vista, a complexidade (complexus: o que é tecido em conjunto) é um tecido de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal. Mas então a complexidade apresenta-se com os traços inquietantes da confusão, do inextricável, da desordem, da ambigüidade, da incerteza… Daí a necessidade, para o conhecimento, de pôr ordem nos fenômenos ao rejeitar a desordem, de afastar o incerto, isto é, de selecionar os elementos de ordem e de certeza, de retirar a ambigüidade, de clarificar, de distinguir, de hierarquizar… Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm o risco de a tornar cega se eliminarem os outros caracteres do complexus; e efetivamente, como o indiquei, elas tornam-nos cegos.” Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexidade#O_pensamento_complexo
A transdisciplinaridade e o pensamento complexo são assuntos delicados do ponto de vista cultural e até social, pois implica em drásticas mudanças para alunos e professores, de uma forma geral para o ensino. Mas a transdisciplinaridade não pretende encontrar limitações entre as disciplinas, mas sim pontes para interligações através delas. Ou como Basarab Nicolescu diz: tudo que está entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de todas as disciplinas.
O conceito de trandisciplinaridade está além da compreensão de partes como um todo apenas do ponto de vista acadêmico, estudos chegam a apontar até a razões que regem a própria existência. Mas, como eu citei, estou apenas encostando-me ao pensamento moderno a fim de dar inicio a uma longa jornada, separando o joio do trigo sobre o tema, focando no desenvolvimento de uma nova metodologia ao ensino do design no Brasil.
Obstáculos para a transdisciplinaridade no ensino brasileiro
- A falta de profissionais aptos a começarem estudos transdisciplinares focados ao design;
- Aplicação do conceito em escolas que já estão com programas de ensino formado;
- Reconceituação do conhecimento;
- Ser reconhecido por portarias de ensino;
- Autopreservação, comodismo;
- O novo, o distante;
- (…)
Vantagens da transdisciplinaridade no ensino do design
- Rompimento dos atuais padrões de aula;
- Um novo saber, uma nova forma de pensar;
- Estudo e desenvolvimento de novas disciplinas para o curso;
- Não isolar disciplinas a ponto de não serem aplicadas na prática junto de outras;
- Maior aproveitamento do conteúdo;
- Expansão do conhecimento;
- (…)
Acima de qualquer termo, deixo aqui um pouco de minhas primeiras impressões, meus incômodos e minha tentativa inicial em desenvolver uma reforma para o ensino do design no Brasil. Esse será meu tema de conclusão de curso para obtenção do título de bacharel em Design Gráfico em dezembro de 2010. Espero poder continuar a pesquisa no mestrado, amparado por pessoas que tenham interesse em contribuir com o tema.
Os métodos são as verdadeiras riquezas. Friedrich Nietzsche
As Lições de uma escola: Uma ponte para muito longe…
Não cobiço nem disputo os teus olhos não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos nem sei tampouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos. Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo. Não me digas como se caminha e por onde é o caminho deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser. Se o caminho dos teus passos estiver iluminado pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias mesmo que tu me percas e eu te perca algures na caminhada certamente nos reencontraremos. Não me expliques como deverei ser quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas. Não me prendas as mãos. Não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi. Deixa-me arriscar o molde talvez incerto deixa-me arriscar o barro talvez impróprio na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro. E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei nem queiras que eu saiba o que eu ainda não sou capaz de interrogar. Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida. Vemos para fora e vemos para dentro.Fora, vemos apenas o que de efêmero se vai oferecendo ao horizonte dos nossos olhos. Dentro, tendemos a ver o que não existe, freqüentemente, o que desejaríamos que existisse…Mas sendo embora aquele que, por inventar o que não existe, antecipa e germina o futuro.
Ademar Ferreira dos Santos